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Para ser bonita tem que sofrer?

“Não importa seu peso, tem dietas para todos”. Essa frase foi retirada de uma revista “Claudia” de 1970. Hoje está escrita em uma das paredes vermelhas do Instituto Itaú Cultural, como parte da exposição “O Preço da Sedução – do espartilho ao silicone”.
Os três andares da mostra, com curadoria de Denise Mattar, são ao mesmo tempo um mergulho no lado mais “mulherzinha” de nós mesmas e uma constatação cruel de o quanto somos vítimas da beleza.
O lado “mulherzinha” é enlouquecedor. Dá para ficar horas olhando os pôsteres de propaganda desde a década de 20, as jóias, as bijouterias, chapéus, bolsas, sapatos, vestidos de noite, broches (os meus preferidos sempre!) e as peças de “toucador”: vidros para perfumes e potes lindos e chiquérrimos para pó-de-arroz e rouge. Para quem adotou recentemente o “Leite de Rosas” como desodorante só porque aquela embalagem cor-de-rosa fica linda no banheiro, dá para imaginar o efeito ao ver as caixinhas vermelhas de rouge da “Colette”... Dá vontade de levar tudo pra casa.
A contrapartida são as técnicas utilizadas e forçadas às mulheres para se adequarem aos padrões de beleza de cada período. A começar pelo “o espartilho e outras formas de tortura” até “a era do silicone”.
Um texto inicial localiza cada um desses períodos historicamente para que o visitante consiga entender, por exemplo, que influência os períodos de guerra e pós-guerra tiveram sobre a moda, a beleza e a conquista da liberdade feminina. Depois, uma lista de “comportamentos” situa o que era “in” naquele momento. Coisas como “boquinha coração” nos anos 20, pinturas e desenhos nas pernas nos anos 30, a “dona de casa perfeita” e seus vestidos rodados dos anos 50, a pílula/minissaia/seios mínimos dos anos 70 (que teriam dado origem à ditadura da magreza, daí a frase acima, que começa essa coluna) e a cultura de academia que teve início nos anos 90 e ainda reina.
Nos anos 00, em vez de um texto descritivo sobre as modas e manias da década, a curadora optou por fazer listas de “os mais-mais”: aulas de academia, dietas e intervenções cirúrgicas plásticas. Divertido e assustador.
Engraçado que eu sempre disse que gostaria de ter vivido no início do século, quando as mulheres mais bonitas eram as mais “arredondadas”. Só não sabia que, para acentuar esse arredondamento, elas eram obrigadas a usar, além de enchimentos nos seios e nos quadris, espartilhos tão apertados para afinar a cintura que afetavam ainda mais a coluna.
E o interessante é que a exposição parece iniciar e acabar com os dois extremos de tortura: os espartilhos nos anos 10 e o silicone e dietas de South Beach etc dos anos 00. No meio disso, diversos outros modismos e regras de beleza se passaram _ mulheres mais andrógenas (20), glamourosas (30 e 40), donas de casa (50), rebeldes e magras (70) _ mas nada foi tão radical.
Além da caracterização e objetos de época, cada década/período da exposição traz também músicas da época e o filme que a marcou: “E O Vento Levou”, “Great Gatsby”, “A Era do Rádio”, “Cinderela em Paris”, “Blow Up – Depois Daquele Beijo”, “A Escrava Isaura”, “Pretty Woman” e “Tomb Raider”.
E o melhor, deixei para o final. Tem uma sala cheia de revistas femininas desde 1914, que estão lá para serem manuseadas. Dá para ficar horas lendo “A Noite Ilustrada”, de 1933, que traz uma eleição das pernas mais perfeitas. Na capa, três mulheres com coxas e joelhos à mostra. “Helo: Garota de Hoje”, mostra Helô Pinheiro morena e linda, em 1962, na “Fatos e Fotos”. Claudia Cardinale foi eleita uma das 10 mais belas de 1963, também na “Fatos e Fotos”. “O Cruzeiro”, de 1953, traz uma mulher de biquíni na capa e fotos bastante “ousadas” dentro.
O “topless” foi destaque da capa da “Manchete” em 1980, mostrando duas garotas com seios minúsculos nas praias do Rio. “O Jornal das Moças”, de 1956, traz editorial de moda e matéria de comportamento sobre como conciliar seu tempo entre o marido, a casa e os filhos. E a revista “Vida Palestrina”, número 2, ano 1, de 5 de abril de 1940, tem uma área dedicada a o que as mulheres palmeirenses têm a dizer sobre futebol. Isso é que é time de visão!!

 
 

 

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